sexta-feira, agosto 28

Morre aos 97 anos Yayoi Kusama, a artista das bolinhas que encantou o mundo contemporâneo

A renomada artista japonesa Yayoi Kusama, amplamente reconhecida como uma das figuras mais destacadas da arte contemporânea e famosa por suas obras repletas de bolinhas, esculturas de abóboras e experiências imersivas, faleceu aos 97 anos.

O falecimento de Kusama ocorreu em um hospital em Tóquio no dia 14 de agosto. A notícia foi divulgada nesta quinta-feira (27) pela sua equipe e pelo Museu Yayoi Kusama, embora a causa da morte não tenha sido especificada no comunicado oficial.

Durante uma trajetória artística que se estendeu por várias décadas, Kusama transformou suas vivências pessoais e alucinações em diversas formas de arte, incluindo pinturas, esculturas, performances e instalações. Seu estilo é internacionalmente reconhecido por padrões repetitivos e pelas icônicas “Infinity Mirror Rooms”, que proporcionam a sensação de espaços infinitos.

Conforme informado por sua equipe, a artista manteve-se ativa até seus últimos dias, continuando a criar incessantemente e deixando um legado marcado pela experimentação artística e pela busca de novas maneiras de se expressar.

Da cidade natal a Nova York

Kusama nasceu em Matsumoto, Japão, em 1929, onde começou a desenhar ainda na infância. Desde cedo, ela relatava experiências visuais com padrões como luzes e pontos, que mais tarde se tornariam elementos centrais em suas obras.

Aos 28 anos, em 1957, decidiu se mudar para os Estados Unidos e fez de Nova York seu novo lar. Na metrópole americana, destacou-se na cena artística vanguardista com suas pinturas, esculturas e performances inovadoras. Seu trabalho chamou atenção por explorar temas como repetição e acumulação em escalas grandiosas.

No decorrer da década de 1960, Kusama também participou ativamente de manifestações artísticas com caráter político e pacifista, engajando-se especialmente nos protestos contra a Guerra do Vietnã.

A artista interagiu com importantes personalidades da arte nos Estados Unidos ao longo dos anos. Sua obra foi exposta em algumas das galerias e museus mais prestigiados do mundo.

A ligação entre arte e alucinações

Kusama sempre foi franca sobre as alucinações que a acompanhavam desde sua infância e sobre o impacto delas em seu processo criativo.

Em 2017, ela compartilhou que ainda experienciava essas alucinações, descrevendo como via pontos se espalhando por superfícies como roupas, chão e objetos ao seu redor. Para ela, pintar essas formas era uma maneira de lidar com essas percepções únicas.

Após retornar ao Japão em 1973, Kusama optou por residir voluntariamente em uma instituição psiquiátrica a partir de 1977. Mesmo vivendo nesse ambiente restrito, continuou criando arte em um estúdio próximo e manteve uma rotina produtiva ao longo das décadas.

Sua permanência no hospital não foi um obstáculo para sua carreira; pelo contrário, nesse período ela alcançou um nível ainda maior de reconhecimento internacional.

As características marcantes: bolinhas e abóboras

Os pontos se tornaram o símbolo mais emblemático da artista. Eles estão presentes nas suas pinturas, esculturas e instalações, criando a impressão de que superfícies foram invadidas por padrões infinitos.

Outro elemento recorrente na obra de Kusama são as abóboras. Uma das suas criações mais célebres é a “Yellow Pumpkin”, localizada na ilha japonesa de Naoshima, que se tornou um ícone da arte contemporânea no Japão.

No entanto, em 2021, essa escultura foi levada pelo mar durante a passagem do tufão Lupit. Com cerca de dois metros de altura e mais de 2,5 metros de largura, a obra estava instalada em Naoshima desde 1994 e era considerada uma das principais atrações da conhecida “ilha da arte”.

Kusama no Brasil

A artista também conquistou um vasto público brasileiro. Em 2014, sua exposição “Obsessão Infinita” passou por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo atraiu mais de 500 mil visitantes.

A mostra gerou longas filas nas cidades onde esteve exposta e registrou esperas que chegavam a várias horas para entrada em São Paulo — evidenciando a popularidade das instalações de Kusama entre os brasileiros.

A partir de 2023, ela conta com uma galeria permanente no Instituto Inhotim localizado em Brumadinho (MG), onde estão expostas duas obras: “I’m here, but nothing”, datada de 2000; e “Aftermath of Obliteration of Eternity”, criada em 2009.

Um legado duradouro

Permanecendo ativa mesmo após seu falecimento, o trabalho de Kusama continua sendo apresentado em exposições ao redor do mundo. O site oficial da artista menciona que uma nova exposição dedicada à sua obra está programada para ocorrer no Stedelijk Museum em Amsterdã entre setembro de 2026 e janeiro de 2027.

No anúncio da morte da artista, sua equipe declarou que pretende honrar seus desejos ao continuar levando esperança e força através da arte para as gerações futuras.